Operação policial prende suspeitos de envolvimento em 'tribunais do crime' em Rosana

25/10/2019 05h51 'Julgamentos' foram utilizados para a cobrança de dívidas relacionadas ao tráfico de drogas. Polícia Civil investiga os delitos de associação criminosa, extorsão e tortura.
Por G1 , Rosana - SP
Operação policial prende suspeitos de envolvimento em 'tribunais do crime' em Rosana Apreensões foram feitas em residência em Porto Primavera. (Foto: Polícia Civil / Cedida)

Uma operação realizada nesta quarta-feira (23) pela Polícia Civil, com o apoio da Polícia Militar, resultou na prisão em flagrante de três jovens - uma moça, de 24 anos, e dois rapazes, de 18 e 29 anos - no distrito de Porto Primavera, em Rosana (SP), suspeitos de envolvimento em "tribunais do crime" destinados à cobrança de dívidas relacionadas ao tráfico de drogas, além do "julgamento" de outros tipos de "demandas" do grupo contra desafetos.

Segundo a Polícia Civil, já existem indícios de participação dos dois rapazes nos "tribunais do crime", que são investigados em um inquérito policial que apura os delitos de associação criminosa, extorsão e tortura, enquanto a moça ainda é tratada, no momento, apenas como suspeita.

Pelo flagrante nesta quarta-feira (23), todos os três vão responder pelo crime de posse ilegal de arma de fogo. O rapaz de 29 anos também será investigado por coação no curso do processo, enquanto o mais novo ainda responderá por lesão corporal e resistência qualificada.

Segundo a Polícia Civil, as investigações vão tentar esclarecer se os "tribunais do crime" têm alguma ligação com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

Disque Direitos Humanos

A Polícia Civil informou que há vários meses tem recebido denúncias formais anônimas, através do serviço conhecido como Disque Direitos Humanos, dando conta de que um homem, que seria envolvido com o tráfico de drogas, integrante do PCC e recém-saído do sistema penitenciário, possuiria armas de fogo ilegais e, ainda, estaria liderando "tribunais do crime" na cidade, "sumariando" devedores de entorpecentes e outras demandas apresentadas por seus associados.

As notícias ainda davam conta de que o homem estaria atuando associado a um rapaz que, recentemente, tinha atingido a maioridade.

Após diversas diligências, os policiais identificaram o denunciado como o rapaz de 29 anos, mas ainda restava encontrar o seu paradeiro e o local onde estaria pernoitando.

Nesta quarta-feira (23), após novas diligências, o local onde o investigado estaria residindo foi descoberto. Na residência no distrito de Porto Primavera, em Rosana, pertencente à moça de 24 anos, os policiais encontraram todos os três jovens dormindo.

O mais velho foi contido e submetido a uma revista pessoal, mas o mais novo conseguiu fugir do imóvel. Ele entrou em luta corporal com dois policiais e agrediu um dos agentes, causando-lhe lesões físicas.

O policial agredido foi submetido a exame médico para posterior realização da perícia que fará a constatação das lesões corporais.

No quarto onde estavam os dois rapazes, que são primos, foi encontrado um revólver de calibre 32, o qual encontrava-se a pronto acesso de todos os investigados.

A moça, que dormia no quarto ao lado e é apontada como amiga dos dois primos, logo disse que não havia outra arma na casa, apenas aquela, demonstrando que tinha plena ciência de que o artefato estava em sua residência.

A arma era mantida sob uma mala de roupas, sem qualquer tipo de dissimulação, à disposição dos três indiciados.

Durante as buscas, ainda foram encontradas uma máquina de choque elétrico, também conhecida como "taser", duas facas e anotações que, ao que tudo indica, segundo a polícia, se referem ao tráfico de drogas, já que na lista constam nomes de usuários e traficantes já conhecidos dos agentes.

Ao verificarem os apontamentos encontrados na casa da jovem, confrontando com anotações feitas por ela na presença dos agentes, os policiais detectaram que há indícios de que aqueles partiram de seu próprio punho. Além disso, as facas e o "taser" foram encontrados na gaveta da moça, compartimento onde havia outros itens de cunho pessoal.

Na residência, também foram encontradas duas motocicletas, veículos que são citados nas denúncias anônimas como sendo usados pelo homem de 29 anos e, por isso, acabaram apreendidos pela Polícia Civil.

As diligências prosseguiram e logo o rapaz de 18 anos foi encontrado, já em outra residência. Ele voltou a oferecer resistência aos policiais, mas acabou detido e também conduzido à Delegacia da Polícia Civil.

'Do inferno ninguém volta'

Na delegacia, o rapaz mais velho proferia a todo tempo ameaças contra os agentes, dizendo que, ao sair, irá "mandar todos pro inferno" e que "do inferno ninguém volta". Também foram feitas ameaças, inclusive, aos familiares dos policiais.

Ele frisou ainda que jamais teve problemas com policiais, mas que agora eles iriam "ouvir" a sua "voz".

Segundo a polícia, as ameaças eram sempre vinculadas a dizeres como "tão atrasando minha vida", ou seja, visando escapar de sua responsabilização criminal.

O revólver de calibre 32, com numeração ilegível, foi submetido a uma verificação preliminar, que constatou estar em bom estado de conservação, apresentando seus mecanismos em perfeito funcionamento.

As anotações apreendidas na casa da moça, ao que tudo indica, partiram de seu próprio punho e se referem à contabilidade da venda de drogas, pois há nomes de usuários e traficantes conhecidos pelos policiais.

Os três jovens, em seus interrogatórios, mantiveram-se em silêncio.

O mais velho, do início ao fim dos trabalhos na delegacia, se portou de forma agressiva, sempre buscando intimidar os agentes, alegando pertencer ao "mundo do crime".

A Polícia Civil acrescentou fotos que mostram o mais velho em poder de outras armas de fogo, além das diversas denúncias feitas através do Disque Direitos Humanos que levaram às diligências desta quarta-feira (23).

Ainda foi anexado o Boletim de Ocorrência no qual se registrou a prática dos crimes de tortura e extorsão, engendrados pelos dois rapazes, que, segundo a Polícia Civil, praticavam atos assemelhados a verdadeiro "tribunal do crime", em que dívidas e outras condutas eram cobradas e "sumariadas" pela dupla. Tais fatos serão apurados em um inquérito policial diferente, contudo, os instrumentos apreendidos nesta quarta-feira (23) em poder da moça (facas e "taser") podem ter vinculação com os "tribunais do crime". Juntamente foi anexado o termo de declaração de uma das vítimas, com a narrativa dos atos de extorsão e tortura.

A Polícia Civil representou à Justiça pela decretação da prisão preventiva dos três envolvidos.

Comente, sugira e participe:

Entre no grupo do WhatsApp e receba notícias diariamente pelo celular!